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Sobre o que MESMO estamos falando? O nada óbvio universo de Diversidade & Inclusão.

Sobre o que MESMO estamos falando? O nada óbvio universo de Diversidade & Inclusão.

Eu comecei a trabalhar com 14 anos. Um dia, enquanto o Zé, meu primeiro chefe, me explicava um procedimento de trabalho, eu o interrompi e disse: - Você não precisa me explicar isso, porque isso é óbvio. Ele parou, me olhou firme e disse, rispidamente: - O óbvio não existe; e continuou me repassando as orientações laborais. Num mix de ingenuidade e arrogância da minha tenra juventude, eu ri da cara dele, discordando veementemente daquela afirmação. Era óbvio que ele estava completamente errado.

Anos depois, quando o universo da Diversidade & Inclusão entrou na minha vida e comecei a me relacionar de maneira mais influente com as pessoas, eu fui descobrindo que o Zé tinha razão.

À medida que vamos encontrando o nosso caminho, aquilo que preenche nosso coração, que nos faz descobrir nosso talento e transformá-lo em ação que nos destaca em movimento e performance, começamos a ver tudo o que diz respeito ao nosso óbvio, mais óbvio ainda. Fazemos as conexões de maneira automática, as ideias surgem num piscar de olhos e queremos fazer tudo num estalar de dedos.  Mas aí descobrimos que o óbvio pra nós, infelizmente não é óbvio para as outras pessoas.

Esta descoberta frustra, desanima, e por vezes (não poucas) causa raiva e ansiedade porque descobrimos que o trabalho será mais difícil do que pensávamos e desejávamos. Então temos que desacelerar ao ritmo do contexto e começar uma jornada de observação, escuta, provocação, proposição de ideias, persuasão e influência individual e coletiva para que o nosso óbvio comece a fazer sentido para as demais pessoas e as mudanças que já enxergamos longe, comecem a acontecer a passos de formiguinha.

Qualquer que seja o seu óbvio, me diz se não foi (ou ainda é) assim pra você?

Mas vamos ao assunto desta conversa, porque meu intuito hoje é deixá-lo um pouco mais óbvio pra você. Sobre o que mesmo é Diversidade & Inclusão?

DIVERSIDADE é uma característica da condição humana, e como tal, é um assunto que diz respeito a mim, a você e a todas as pessoas deste planeta. Nossa digital é um símbolo biológico e metafórico de que, dentre as quase 8 bilhões de pessoas existentes no mundo, não há sequer uma igual a outra. Isto é fato.

Ao mesmo tempo, somos seres sociais e vivemos em comunidade. Nós precisamos da comunidade para nos construir e construir nossa história no mundo. Esta construção acontece na família, na escola, na vizinhança, na empresa, no grupo de amigos, no trabalho voluntário, na igreja ou na academia. Esta construção acontece em todos os lugares e grupos onde queremos ser acolhidos, aceitos, pertencer, aprender, realizar, contribuir.

Só que cada um de nós é constituído por inúmeras características, algumas mutáveis, outras não e, de acordo com a cultura de cada comunidade, algumas características são mais ou menos aceitas e se traduzem em mais ou menos oportunidades, mais ou menos conflitos, mais ou menos violência, mais ou menos morte, mais ou menos tudo o que pode ser julgado como de maior ou menor valor, de acordo com a moral, as crenças e os costumes que construíram a história da própria comunidade até então.

Considerar Diversidade somente sob a ótica da outra pessoa e sua diferença, é o primeiro grande equívoco que cometemos porque, assim como ela, eu e você também temos todas as características que são, inevitavelmente, submetidas ao “julgamento” da comunidade onde vivemos.

Devemos compreender e defender a máxima de que todas as nossas características importam. Não podemos desconsiderá-las ou invizibilizá-las em nós e nem nos outros. Quando isto se torna óbvio, acredite, nos tornamos mais atentos, interessados e compassivos. Tudo começa com a ampliação do nosso olhar e da nossa consciência.

Na mesma proporção, não podemos reduzir as pessoas às suas características, porque elas são um conjunto complexo de muitas delas e, como seres únicos, sua essência é, e sempre será o seu maior valor.

Não é uma equação fácil porque não sabemos ainda fazer nem uma coisa nem outra direito. Ainda tendemos ir para o tudo ou nada, para os extremos. Fingimos que certas características não existem ou apontamos nossa atenção (e nosso dedo) somente para elas. Estamos todos aprendendo, e olhar com seriedade para o tema, falar sobre, compartilhar nosso pensar e sentir, é essencial para evoluirmos.

Mas se diversidade é um fato, o que é inclusão?

INCLUSÃO é ação; e ação com intencionalidade. É reconhecer que, no nosso contexto sócio-cultural, há características em histórica desvantagem em relação à outras que geraram (e ainda geram) realidades desiguais inaceitáveis e sofrimento para milhões de pessoas.

Inclusão é reunir esforços para acelerar mudanças que, de maneira natural ao ritmo do padrão sócio-cultural, não aconteceriam (e não acontecerão). É dar acessos à pessoas com características específicas para que possam mostrar o valor dos seus seres, saberes e fazeres. Inclusão, como diz lindamente Reinaldo Bulgarelli “é agir para que o outro exista”. Este é outro óbvio; meio poético, até. Mas, talvez, o óbvio mais difícil de transformarmos em prática . 

Mais difícil porque nos exige um interesse genuíno em querer saber como é ser a outra pessoa. O que tem de belo nela? De potencial? De sonhos? Quais são suas ideias? O que lhe dói? Que marcas ela tem? O que a incomoda? O que ela quer mudar? O que ela pode ensinar sobre suas caracteristicas que eu ainda não sei? Como ela pode me ajudar a criar novas conexões? Como posso crescer pelo simples fato de estar perto desta pessoa?

É realmente um convite à auto-observação e autocrítica. O que estou sentindo e pensando sobre esta pessoa? Porque estou julgando tal característica, tal escolha? De onde vem este julgamento? O que estou vendo é real ou me foi ensinado? Por que sua característica me causa estranhamento? Me aborrece? Por que me dá medo? Ou pena?

Incluir nos exige desenvolver uma escuta ativa, o que não estamos acostumados a fazer (porque não sabemos), uma vez que, é quase que automático, ouvirmos as outras pessoas engatilhando nossa resposta, nosso ponto de vista, nosso ‘não é bem assim,’ ou nosso ‘veja bem..., não concordo'. É um óbvio muito mais difícil  porque nos desafia a criar e cultivar novos comportamentos, a cuidar da qualidade das nossas relações. É uma decisão diária que vai nos tornando mais vigilantes à como se dá o estado das coisas e, quando nos permitimos fazer isso, começamos a propor um novo jeito de fazer, desejamos com toda a nossa força impactar uma determinada realidade, ou várias realidades. Mudar o status quo. Porque inclusão é impacto. Este óbvio é premissa, ponto de partida.

Mas o que mais me encanta na inclusão é a oportunidade ela nos dá de conviver; porque conviver transforma. Nos torna mais nós mesmos, puros, bons e belos como humanos que somos.

Estas duas palavras juntas - Diversidade & Inclusão - formam uma força poderosa, um movimento civilizatório contemporâneo e global que age para que cada pessoa tenha a liberdade de ser, o direito de viver, a chance para fazer e a paz para conviver. Este movimento está presente na nossa vida, percebamos ou não, queiramos ou não.

Eu espero que meus óbvios tenham despertado (ou ampliado) a sua percepção e o seu querer e que novos óbvios tenham sido descobertos dentro de você. Porque, afinal, DIVERSIDADE é sobre todos nós, e INCLUSÃO é sobre como todos nós vivemos juntos.

Um caloroso abraço inclusivo!

Vivi ;)

Transformação Criativa
Viviane de Araújo
Viviane de Araújo Seguir

Consultora empresarial, escritora, empreendedora e mãe. Ajudo as pessoas a ampliar o olhar sobre diversidade e desenvolver competências para tornar o mundo mais inclusivo.

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