[ editar artigo]

Sobre mudar de país, com Manuela Ramiro

Sobre mudar de país, com Manuela Ramiro

Amo contar histórias e conheço uma galera com histórias muito boas para contar. Mas, muitas dessas pessoas não tem facilidade em transcrevê-las e compartilhar sua visão, que pode inspirar e ajudar tantas outras. Pensando nisso, resolvi tentar dar voz a essas experiências através das minhas palavras, com todo o cuidado e admiração que essas histórias e pessoas merecem. Assim, de uma “brincadeirinha” com amigos, surge o “Jojo Talks”, onde transformarei essas conversas em narrativas, em posts, com grandes pitadas de coautoria.

Estreando então, uma história sobre mudança, de Manuela Ramiro, 26 anos, engenheira, esposa, mãe, melhor amiga e imigrante brasileira trabalhando em uma sorveteria na Alemanha.

A opção de mudar pra Alemanha, surgiu literalmente da vontade doida de mudar, de ter um novo start na vida, sair de um ambiente de trabalho tóxico (que aliás, já é pauta de um próximo papo), dar uma pausa na profissão e provar a si mesma que ela podia ganhar o mundo. A decisão foi tomada muito rapidamente, mas isso não significa que foi fácil. Pelo contrário.

“A gente cresce com uma crença: faz tudo daquele jeito moldado pela sociedade, achando que a vida vai sair conforme planejado e quando percebemos que na verdade nada é assim bate um desespero. Mudar é uma decisão extremamente difícil.”

A Alemanha é um destino escolhido frequentemente por jovens que procuram um trabalho no exterior e têm dupla cidadania, o que, na região do sul do Brasil, origem dessa viagem, é um tanto comum. O ofício com maior oferta se dá em sorveterias, que aparentemente bombam por lá! É uma maneira de ter um bom resultado financeiro em curto prazo, com a baita valorização do euro.

O trabalho não é nada fácil, não vamos nos iludir com os euros. A escala é 6x1, com carga horária que pode facilmente chegar a 12h/dia. No entanto, outro belo atrativo é que a maioria dos gastos “padrão” ficam por conta do contratante:

“Além do pagamento do salário, recebemos em troca do trabalho moradia e alimentação. O único gasto por lá é no dia de folga semanal, então temos a opção de poupar ao máximo."


A Manu foi pra lá sem saber nadinha do idioma natal e enrolando no inglês, e esse, de cara, foi o primeiro desafio: vencer o idioma. É através da evolução nele que o desempenho dentro da sorveteria pode melhorar e, assim, o funcionário vai “subindo” de cargos, podendo atender os clientes diretamente e não ficar só nos bastidores, o que é corriqueiro no início. Em um mês ela conseguiu avançar para o atendimento no balcão, com o alemão básico, mas sempre buscando mostrar sua proatividade fazendo um pouquinho de tudo.

“Sei o básico do básico da língua, ainda estou engatinhando. O alemão parece ser difícil? Multiplica a dificuldade por 10. Na sorveteria comecei montando taças de sorvete e depois passei a atender no balcão. Alguns dias fiz garçonete, tirando pedidos e entregando nas mesas. Por fim, fui garçonete em um restaurante. Nesse último ainda estava em fase de adaptação, pois o vocabulário precisa ser maior, por conta do cardápio mais extenso e suas variações.”

Nem tudo são flores: dar tchau para a família e viver a tantos quilômetros de distância é com certeza o maior desafio e maior prova de resistência e resiliência dessa mudança. A distância física e o fuso horário podem trazer a sensação de estar de mãos atadas, de perder o controle da situação por aqui (no Brasil). É sobre querer estar presente, mas na maioria das vezes o ritmo de trabalho não permitir. Sobre estar constantemente se questionando, com fases ótimas e fases ruins, porque a saudade dói.

Não bastassem todos os desafios cabulosos, logo no primeiro ano de mudança veio algo que mudou a vida do mundo inteiro: a pandemia. Esse fator atrasou substancialmente o desempenho e desenvolvimento de muitos imigrantes, além de trazer à tona os sentimentos de medo e insegurança, principalmente para os que estavam dando os primeiros passos, como a Manuela. Afinal, imagine estar a milhares quilômetros de distância da sua família e amigos nessa situação, por tempo indeterminado, com aeroportos fechando. E por lá o isolamento e lockdown foram bem mais rigorosos, com policiamento nas ruas o tempo todo.

“Meu objetivo principal foi interrompido pela pandemia. Tem dias que a gente se pergunta se fez a coisa certa. ‘Se’ isso, ‘se’ aquilo... O vírus trouxe muitas incertezas.”

Agora, o objetivo dela é retomar a conquista de onde parou e voltar ainda mais focada, criativa e forte, pra alcançar a sonhada independência financeira e poder alçar novos voos, realizando seus sonhos. A dica pra quem quer dar esse passo é: seja curioso, estude um pouco do idioma antes e ‘meta a cara’! É importante saber se impor e entender que você não é inferior pelo país de onde veio ou pela função que desempenha. Divirta-se também, não deixe de aproveitar o lugar diferente onde está, com tantas novidades a serem exploradas.

“É importante manter o foco na questão financeira, mas também tentar aproveitar a vida. Buscar informação e aprendizado em todo canto, no trabalho, mercado, lojas, porque sempre há a oportunidade de aprender mais. Além do idioma, busquei estar sempre de olho nas novidades da minha área de formação (engenharia/construção civil).  Em 2021 volto mais segura e focada.”

A Manu está passando o período de “férias” com sua família no Brasil, mas no final dessa semana retorna a Alemanha para retomar sua jornada e chegar mais perto dos seus objetivos, impulsionados por seu trabalho como imigrante. Do lado de cá fica a torcida pra esse segundo ano ser de ainda mais aprendizado, com coração mais tranquilo e objetivos mais que alcançados. Fica também a saudade dessa melhor amiga e irmã de outra mãe.

Boa viagem!

Transformação Criativa
JOANA LAZZARIS VENERANTO
JOANA LAZZARIS VENERANTO Seguir

Engenheira Civil, Supervisora de Expansão de uma das maiores Redes de Depilação a Laser do mundo. Fala, escreve, lê, escuta, assiste, observa e transforma um pouquinho de tudo.

Ler conteúdo completo
Indicados para você