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Rotulagem Ambiental – O que os selos e declarações ambientais nos contam sobre o que consumimos

Rotulagem Ambiental – O que os selos e declarações ambientais nos contam sobre o que consumimos

Imagine a seguinte situação:

Você vai a um supermercado, ou abre um app no seu celular, e começa a procurar os itens que deseja comprar. Você se depara com uma grande variedade de marcas diferentes vendendo os mesmos produtos – todos usando as mais diversas estratégias para chamar sua atenção.

Você, assim como uma parcela cada vez maior da população, prefere alinhar seu consumo com empresas e produtos que apresentem cuidados socioambientais. Claro, o preço pago pelo produto é a informação mais importante no momento da compra. Entretanto, de vez em quando, gastar um pouquinho a mais em um produto o outro que se apresente essas preocupações talvez não seja uma má ideia.

Você encontra o produto que estava procurando, e logo vê uma imagem verde, grande, chamativa, que se assemelha a um adesivo, e está bem localizada na embalagem do produto que você pretende comprar. Esse “adesivo verde” te passa uma informação que remete à preocupação ambiental ou impacto ambiental evitado na produção daquele item. “É esse mesmo”, você pensa. Mas logo se pergunta, “será que é verdade?”. Você ignora essa pergunta, coloca o item na cestinha (física ou virtual), e segue com suas compras. Afinal, ainda tem muitos outros produtos que você precisa procurar.

Mas, o que era aquele “adesivo verde” na embalagem do produto? Para o que ele serve? Como ele foi feito? E o mais importante, as informações ali apresentadas eram verdadeiras, ou apenas Greenwashing?

Por isso, vamos falar sobre Rotulagem Ambiental!

Mas antes, vamos dar um passo atrás e relembrar o que é esse tal de Greenwashing. Em bom português, esse termo pode receber vários nomes, como Lavagem Verde, Pintura Verde, ou Maquiagem Verde. Independente do nome escolhido, essa prática se refere ao uso de imagens, textos, ou anúncios que indevidamente divulgam os benefícios trazidos por aquele produto à defesa do meio ambiente, sendo que na verdade, não se passa de uma estratégia utilizada por empresas para tentar ganhar a atenção do cliente e participação no mercado. Infelizmente, o Greenwashing se popularizou nas décadas de 80 e 90, o que levou à necessidade da criação de mecanismos para evitar sua propagação.

Isso se dá a partir da criação de rótulos, declarações e certificações ambientais que comprovem as informações de cunho ambiental comunicadas pelas empresas.

 

“O rótulo/declaração ambiental é uma afirmação que indica os aspectos ambientais de um produto. Sua divulgação pode ser feita no formato textual, como símbolo ou elemento gráfico em um rótulo, na embalagem, em boletins técnicos, publicidades, entre outros.” Fonte: ABNT (2002).

 

Os rótulos ambientais seguem classificações e definições criteriosas desenvolvidas por órgãos competentes. Mas os pormenores desse processo não nos importam no momento. O que importa é entender um pouco mais sobre esses rótulos, para termos então o mínimo de informações e necessárias para fugir do Greenwashing.

Os rótulos ambientais são classificados em três principais grupos: Tipo I – Selos ambientais, Tipo II – Autodeclarações ambientais e Tipo III – Declarações Ambientais de Produto (DAP). Abaixo explico um pouco mais sobre cada um:

 

TIPO I – SELOS AMBIENTAIS

Os selos ambientais são programas de adesão voluntária por parte da empresa. Eles focam em questões ambientais específicas, respeitam princípios básicos de transparência, são obtidos por meio de verificação independente (uma auditoria para a comprovação das informações apresentadas), e tem o objetivo de informar e auxiliar o consumidor na busca por produtos ambientalmente responsáveis/eficientes com base em critérios específicos.

Exemplos: Selo PROCEL (produtos eletrônicos, credenciado pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica), Selo SisOrg (produtos orgânicos, credenciado pelo Ministério da Agricultura), Selo Vegano (produtos veganos, credenciado pela Sociedade Vegetariana Brasileira).


TIPO II – AUTODECLARAÇÕES AMBIENTAIS

As autodeclarações ambientais focam em atributos específicos relacionados ao produto, ou seja, é comunicado a informação que a empresa quer que o cliente veja (produto reciclado, sustentável, ecoeficiente, etc.). Esses selos não apresentam verificação externa, assim, são aqueles mais propensos ao Greenwashing. Na prática, as autodeclarações ambientais são um mecanismo de mercado para chamar a atenção do cliente.

Diferente dos rótulos Tipo I e III, a Autodeclaração Ambiental não depende de auditorias e investimentos financeiros. Por isso, a grande maioria dos produtos que utilizam comunicações de cunho ambiental optam por empregar autodeclarações ambientais. Dessa forma, a empresa comunica o que quer, obtém esse benefício de marketing, e não despende esforços e recursos para tal.

Temos sempre que manter um olho aberto para empresas que se autodeclaram como sendo “sustentáveis”, “amigas do meio ambiente”, “ecológicas”, dentro outros jargões ambientais. Esses são fortes indícios de Greenwashing.

Isso significa que todos os rótulos ambientais autodeclarados por empresas são ruins? Não. De forma alguma. Pequenos e médios empreendedores encontram nas autodeclarações um importante aliado de mercado, uma vez que o processo de certificação para obtenção de um rótulo Tipo I ou III pode ser muito oneroso, ou até inviável, para negócios de pequena escala ou em sua fase inicial. Entretanto, essa eles devem ser utilizados com cautela e com base em atributos reais ligados ao produto em questão.

Exemplos: “100% reciclado”, “Produto sustentável”, “Livre de desmatamento”, “Ecológico”, “Produção consciente”, dentre outros.

TIPO III – DECLARAÇÕES AMBIENTAIS DE PRODUTO

Esse tipo de declaração ambiental é o mais criterioso dentre os três tipos. Ela se baseia na aplicação da Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), uma metodologia normatizada e internacionalmente reconhecida para o cálculo de potenciais impactos ambientais de produtos e serviços. As Declarações Ambientais de Produto (DAPs) tem adesão voluntária, são verificadas por terceira parte, e comunicam os impactos ambientais de cada etapa do ciclo de vida de um determinado produto com base em critérios previamente determinados.

Na prática, podem funcionar como “rótulos nutricionais” de cunho ambiental. Entretanto, esse tipo de declaração ambiental é normalmente empregado na comunicação entre empresas (B2B – business to business), e dificilmente são encontradas no nosso dia-a-dia.

Exemplos: Para exemplos de DAPs, consulte o site da International EPD System www.environdec.com/library

A preocupação dos clientes com as problemáticas ambientais, a busca por soluções sustentáveis, e a crescente disseminação de conhecimento sobre essas áreas, promovem o aumento da procura por produtos que contribuam positivamente para tais causas.

Devido a essa demanda, empresas buscam se diferenciar de seus concorrentes por meio da adesão a programas de rotulagem ambiental. Os rótulos ambientais fornecem informações aos consumidores com o objetivo de influenciar suas decisões de compra, validar alegações de sustentabilidade e aumentar o desempenho ambiental e social de produtos e processos.

Devido à grande quantidade de empresas que (infelizmente) empregam práticas de Greenwashing, se torna cada vez mais importante a visão crítica do consumidor para com as alegações ambientais feitas por produtores.

Acredito que se informar é a melhor estratégia para fugir dessas armadilhas do marketing, e se alinhar com causas que se alinhem aos nossos propósitos.

Dito isso, espero que esse texto tenha contribuído com seu entendimento desse tema. Na próxima vez que for ao supermercado, ou abrir o app de compras, tente se lembrar desse texto e se perguntar de novo: “será que é verdade?”. Talvez as informações que você agora possui possam te ajudar nesse momento.

Fiquem bem!

Thales.

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Agradeço a contribuição da minha amiga e engenheira ambiental especializada em rotulagem ambiental, Flávia Bittencourt Moré, por me tirar todas as dúvidas possíveis sobre esse tema em pleno domingo ensolarado.

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REFERÊNCIAS:

ANBT NBR 14020: Rótulos e declarações ambientais: princípios gerais. Rio de Janeiro: ABNT, 2002.

ANBT NBR 14021: Rótulos e declarações ambientais: autodeclarações ambientais (rotulagem do tipo II). Rio de Janeiro, 2017.

ANBT NBR 14024: Rótulos e declarações ambientais: rotulagem ambiental do tipo II: princípios e procedimentos. Rio de Janeiro, 2004.

ANBT NBR 14025: Rótulos e declarações ambientais: declarações ambientais do tipo III: princípios e procedimentos. Rio de Janeiro, 2015.

DAHL, R.; Greenwashing: do you know what you’re buying?. Environmental Health Perspectives, 2010.

GALINDRO, B. M. Desenvolvimento de sistema de benchmarking para a comunicação das Declarações Ambientais de Produto (DAPs). 2019. 264 f. Tese (Doutorado) - Curso de Engenharia Ambiental, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019.

INGWERSEN, W. W.; SUBRAMANIAN, V. Guidance for product category rule development: process, outcome, and next steps. International Journal of  Life Cycle Assessment, 2014.

 

Transformação Criativa
Thales Dantas
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Thales é doutorando em Engenharia Ambiental pela UFSC e curador do @globalshaperfloripa. Ele pesquisa e escreve sobre Economia Circular e Sustentabilidade porque acredita que educação e conhecimento são as chaves para melhorarmos o estado do mundo.

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