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Qual poderia ser o papel das Secretarias de Cultura em época de COVID-19?

Qual poderia ser o papel das Secretarias de Cultura em época de COVID-19?

Um dos meus pensamentos recorrentes é: "Mudar o estado das coisas".  E não penso nisso como um ato heróico, marqueteiro, palestrante zen-neohippie de "5am clubs" ou nada além de ser um estado, uma energia, um pensamento, um ambiente em que gosto de estar. De alguma forma, aprendi a estar confortável nesta situação. É um jogo do tipo Imagem & Ação interno,  hoje jogado com diversão. Hoje. Não era assim até pouco tempo. É como direcionar uma força que, antes dispersa, era canalizada em alguns lados que não deveriam estar envolvidos. Só desgasta. E você sabe do que estou falando, né?

Sabemos que as coisas TEM que mudar. Então, mudar o estado das coisas. Mas como? Sei lá... criando novas referências culturais é uma das direções.

Hoje me peguei pensando em áreas tão importantes que não estão sendo SEQUER mencionadas como potenciais solucionadores de problemas e, até o momento, pouco ou NADA estão sendo cogitadas como alternativas ou sendo escutadas como merecem.

Não é questão de uma direção contra a outra. É uma com a outra.  E, quando essa soma se multiplica, o tal do "alerta de mudar o estado das coisas" aparece me questionando que, nesta situação específica: Onde está o Secretário de Cultura de sua cidade neste momento? Aliás, você sabe quem é ele? O que ele pensa sobre seu papel em "mudar o estado das coisas"? Onde e como esta pasta está sendo usada, ouvida, auxiliada, respeitada e focada em resolver problemas?  E, sabemos, os temos. E, sabemos também, provavelmente não os resolveremos da mesma forma de sempre? O que faz este profissional na sua cidade agora?

Fiquei pensando no caso de uma cidade hipotética que, até o momento, estampa  com orgulho a bandeira de "cidade criativa" pelo mundo. Pintou muros aos quantro cantos, patrocinou a imagem por continentes na promessa de conexão, investiu uma grana forte de entidades na promoção do seu pequeno grupo de amigos e, com uma cultura riquíssima e com um potencial muito além do que consegue se perceber, ainda deve ter nos representantes de setores o pensamento no turismo da mesma forma, na educação da mesma forma, na arrecadação da mesma forma, em envelopar o termo criatividade como fizeram com inovação, da mesma forma, em sustentar o Sistema da mesma forma, no empreendedorismo da mesma forma... Neste caso, imagino a força e o impacto que deva ter o representante máximo da cidade no assunto CULTURA. Imagino esta pessoa batendo na mesa e falando: "Ô galera do Turismo, me segue! Ô Saúde, vou tentar aliviar pra vocês aí. Valeu! Ô povo do "Made in XYZ with <3" , mindset ágil é nóis! Segurança, paz.  Educação, agora é a hora! Associativismo, as broderagi tudo, cadê o papo? Negócio é o seguinte... Talvez aqui tenha um caminho. Vem comigo!" . 

A pessoa que entende agora quando o Raul dizia "Não pense
Que a cabeça aguenta
Se você parar"

E qual motivo de imaginar isso?

Geral está perdido. E parece ser só o começo. E isso "pode" ser o caos? Pode. Mas a cultura deveria guiar uma direção também, pois tem poder de reduzir o caos.

Sem nenhum interesse em romantizar nada, nem momento é pra isso, mas precisamos reconhecer que Economia Criativa conhece o caos. Arquitetura também conhece, sociologia, a música, a galera do cinema, o povo do design que soluciona e desenha caminhos, o programador que tem que ser criativo ao extremo, o gueto que vive com o caos e dele faz arte. A transformação sempre existiu. A comunidade sempre foi comunidade. E é só agora que entendemos isso como valor, mas sempre foi. E isso é Cultura. O "deadline" do empreendedor que vai pagar o imposto também conhece o caos, e dele também cria saídas. Valorizar isso também é valorizar Cultura. Cultura Local, se ainda não é, será uma das áreas mais importantes da sua cidade. Perceba e, cada vez mais, olhe pra isso quando quiser pensar em inovação, não vale nada aquele lugar estiloso neste momento.

O próximo espaço de inovação não será mais um espaço ;) 

Conheço a galera de um projeto chamado Maratona Cultural (obs: foram um dos meus primeiros clientes como Glóbulo, lá em 2005, e tenho a felicidade de manter este tipo de laço) , tentando continuar pulsar a cultura local, ainda com poucos incentivos. Eventos, como sabemos, não estão nos seus melhores dias... ir para o digital não é um passo pra depois. E essa galera também está se repensando. E de caos, essa galera também entende. E, assim como eles, perceber que o que as cidades tem a vender como valor, em momentos como esse, é a cultura.

Não é mais o parque de diversões, aquela balada com bebida que pisca, a rede hoteleira, belas praias, restaurantes e os argumentos mais velhos para permanecer na mesmice que vai trazer de volta o passado glorioso. Passou. Já era. 

Mas o que fica?

Cultura. 

 

Elementos de diferenciação de espaços físicos não serão mais físicos. Uma escola pública não será mais julgada apenas pela capacidade de ter ou não ar-condicionado para seus alunos, mas pelo real processo de transformação do aluno, estando ele onde estiver. O que diferencia é cultura. Acesso à cultura. Inclusive para mudar formas já claramente ultrapassada de educação. Chama a galera da sapiência pra sair dos labs e ir pro real world. Não tem cultura. Faz a marca da cidade ter outro significado. Ou melhor: ter, enfim, significado. 

Imagina se alguém da Educação tivesse a capacidade de olhar para algum personagem local da música e, junto com um professor de história, cantar um caso sobre a personalidade retratada no Grafitti feito pelo artista local, junto com a da galera da dança para representar o gosto daquela via gastronomica. Isso é turismo? A pesca artesanal explicando sobre mares, estrelas, geografia e toda a questão da chegada da tainha que tá vindo por aí, nos versos do poeta com a estética do designer que assina a peça... Isso é venda? Aprendizado? Incentivo turístico? Imagina trocar isso entre cidades? Isso é moeda. É economia também. E é cultura, né?

Imagina se a TV local, cada vez mais acostumada a reciclar conteúdo, abrisse espaço pra ajudar a ensinar localmente e, de uma vez por todas, saísse da vitrine da inovação e passasse a ser um real laboratório de cultura local? Temos gente pra caramba pra fazer essa mudança, não acha? Temos gente pra caramba que já faz, e não é de agora. Só não é da mesma forma que os que sentam na mesa fazem. Mas estes já passaram da hora de ver que o de sempre já não funciona mais e, se quiserem ter uma sobrevida, é hora de convidar "os estranhos" para conversa. Não é mais sobre posse, é sobre acesso. E acesso à cultura já não é mais favor. E, aos que não percebem isso, percebam que cultura muda o tempo todo. 

De forma bem simples dá pra ver que, além de parecer que não existe valorização para saídas criativas, muita coisa poderia estar sendo pensadas para mudar realidades que são, tambem, tão importantes para estarem em total silêncio.

Imagine o poder da cultura para educar, para entreter, para movimentar e unir uma nação em prol de algo em comum (vamos supor algo banal, sei lá, FICA EM CASA, por exemplo). Imagina o potencial para repensar soluções para o turismo, para o comércio local, para produtos com origem identificada, para a gastronomia, para novas formas de novas economias, para novas formas associativistas, para diminuir a urgente necessidade de reduzir a distância que nos separa, de metodologias de ensino que podem (e já existem) emergir para melhorar as opções que temos, que é ouvido neste momento e pode fazer a diferença. Imagina o responsável pela inovação da cidade perceber que cultura também era o que tinha dentro daquele coworking que ele só achava um local bonito como background pra entrevista e um dia vai perceber a gigantesca diferença entre um vereador e um gestor de comunidade, e começa a entende que a função do primeiro pode ser facilmente substituída pela eficiência do segundo. A direção muda. Uma nova cultura.

Mas vai muito além disso, e aí talvez esses lideres vão entender o caminho, saca? Cultura. Esse é o produto de exportação! Esse é o produto de diferenciação. 

Imagine o Sistema antigo falando sobre o novo passado e vendendo a internacionalização do mais do mesmo? Nessa forçada de barra já costumeira, o Sec. da Cultura vai lá e rí na cara do perigo, apresentando argumentos que tiram a picaretagem da frente guiando o caminho para a melhora, não para a repetição do que já foi. Importante ter alguém que guie. E essa pessoa sabe que pode contar com algo que nunca vão tirar dela. Cultura. Se não tiver isso como dela, não deveria nem ali estar.

 

 

Olhe para a cultura como ferramenta de mudar o rumo das coisas. Seja quem for.

Essa também pode ser uma forma que une essa galera.

A falta dela, já estamos vendo onde vai parar. 

Transformação Criativa
Alex Lima
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Crazy today, obvious tomorow.

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