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Profissão líquida? Carreira não-linear? Vida caórdica? Não sei, só sei que foi assim.

Profissão líquida? Carreira não-linear? Vida caórdica? Não sei, só sei que foi assim.

 

Todos nós crescemos condicionados a perceber as pessoas pela profissão.  “O que você faz?” é a pergunta mais frequente e que, realmente, tem a pretensão de receber uma resposta. É como se o diploma, uma passagem do currículo ou um cargo sustentassem não só os papos, mas também justificassem escolhas, trejeitos e definissem personalidade de alguém. A gente sempre colocou as pessoas na caixinha da profissão: Fulana é médica, Beltrano é arquiteto. Todo mundo trabalha, todo mundo fala sobre isso e ter essas respostas prontas sempre foi necessidade. O bom e velho “ter prumo na vida”. 

Um dia, eu perdi o prumo. E ficou muito mais difícil pré-programar respostas, mas me aproximou da ideia de compartilhar meu processos, sem medo de escancarar a vulnerabilidade. 

Realizações Presentes > Cargo Eterno

Eu adoro falar sobre as mudanças conscientes que as pessoas criam. Uma galera que eu conheço tá passando por essa evolução. Não uma transformação, várias! E eu me incluo nessa turma. Você também? Me conta tudo! E eu vou também vou te contar algumas coisas da minha experiência nesse texto. Acho essa conversa bem mais interessante porque a pergunta-chave se torna “o que você tá fazendo AGORA?”. Perceba a diferença. É sutil, mas caracteriza a queda definitiva da constância. 

O que você tá realizando nesse momento é importante e diz muito mais sobre você do que aquele conceito fixo e raso do seu diploma ou cartão de visitas (meu, cartão de visitas! / que ano é hoje?!). Entender as camadas que te levaram a construir algo relevante agora! Isso faz com que a transformação, inevitavelmente, venha a impactar a realidade do trabalho.

Tem uma passagem do livro do Facundo Guerra, Empreendedorismo para Subversivos, em que ele toca esse ponto com sabedoria:

"Empreender é um caminho, não um destino. Empreender, antes de mais nada, é um mergulho pra dentro de si, uma investigação existencial que te transformará em algum nível."

Ou vários. Por isso eu não acredito em transformar apenas o trabalho. É mais do que isso.

Pessoas em transformação transformam a realidade do trabalho

Pra gente seguir esse papo, preciso contar umas paradas pra você. Eu fui early adopter em 3 rolês considerados importantes na ressignificação das profissões:

  1. Larguei “tudo” pra empreender. Uma empresa-livre (na época, esse nome nem existia).
  2. Trabalhei em rede e gerenciei comunidades quando todo mundo achava que isso era utópico. Agora até associações quadradas falam sobre o poder de mobilização das redes.
  3. 95% do meu trampo é remoto e eu posso produzir em qualquer lugar do mundo. Isso rola desde a época em que as pessoas jogavam Fazendinha Feliz no Facebook, mas continuavam tendo Orkut. 

Você deve tá pensando ‘Grande-merdas, Marilia’. 

O que eu quero dizer com isso? Tava tudo muito bem até eu perceber que mesmo vivendo formas diferentes e mais livres de trabalhar, eu acabei caindo numa falácia. Eu inspirava, expirava e transpirava meu trabalho, meu sobrenome era o nome da minha marca. Eu me tornei meu trabalho. E, com isso, eu tava limitando meu poder de ação em questões que considero relevantes, não conseguia circular em ambientes diferentes do nicho inovação-criatividade-empreendedorismo e, consequentemente, toda aquela liberdade que o meu trampo deveria me proporcionar, não era suficiente. 

Nessa época, eu tinha prumo na vida e era muito mais fácil falar sobre o que eu fazia. Por isso, perder o prumo foi o mote da última transformação na minha forma de enxergar o trabalho. 

Pai, mãe, se vocês estiverem lendo isso, se acalmem! Eu não vou vender minha arte na praia. Na verdade, talvez eu vá. Mas não porque virei hippie demais pra outras coisas, mas porque infinitas portas se abriram e essa última transformação não foi só profissional, me devolveu o poder de escolha e as escolhas são infinitas. Eu não to mais presa num caminho linear. Ufa!

Eu entendi que precisava ter a chance de me transformar sempre que sentisse necessidade. É o que eu to chamando de profissão líquida, flexível, moldável. Uma escolha plenamente consciente que me reconectou com meus princípios e ressignificou meus talentos. Primeiro pra mim, depois pro mundo. 

Ressignificar Talentos

Qual é o talento de uma caneta Bic? Em teoria, é escrever. Mas uma caneta Bic pode ser utilizada pra prender o cabelo, pra rebobinar uma fita cassete e pra fazer uma traqueostomia de emergência. O mesmo acontece com a gente. Nossos talentos não precisam ter uma só finalidade e ressignificá-los é crucial. 

Reconhecer nossos talentos nem sempre é fácil. No meu caso, trilhei o caminho de reconhecer a competência do coletivo, enaltecer as pessoas que estavam ao meu lado muito mais do que a mim. E isso é massa, mas fez com que eu deixasse de me enxergar como pessoa capaz individualmente. Primeiro, eu deixei de me anular em prol do coletivo. Depois desse processo, eu precisei me jogar em aplicar esses talentos em novas empreitadas, o que também não é tão simples quando você já tem certo reconhecimento em algumas atividades específicas. É o efeito daquela caixinha profissional sobre a qual falei no comecinho do texto. O reconhecimento é uma faca de dois gumes porque te conecta automaticamente a uma especialidade, fazendo com que seu nome seja lembrado quando o assunto for correspondente, mas também fazendo com que não te percebam em sua pluralidade. 

Demandou tempo e dedicação, mas o foco foi compreender, estimular, testar e assumir minha pluralidade como necessidade no mundo VUCA. 

Mundo VUCA

Pausa pra falar de VUCA porque ninguém é obrigado a sacar a doideira que vivemos por essa perspectiva e, se você tá familiarizado com esse tema, aproveita pra relembrar de um jeito diferente, olhando mais pra si e menos pras organizações.

VUCA é uma sigla: Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity.

Um conceito que ajuda a entender os desafios atuais. O mundo tá mucho loko mesmo e a gente precisa, cada vez mais, abraçar nossa flexibilidade e multidisciplinaridade. E, mais do que isso, ter coragem pra se libertar daquilo que não é pró-transformação porque mudar será uma constante. 

Ideias Falsas 

Talvez você tenha contato com muito conteúdo que te fala sobre ser forte, incansável, não desistir nunca, vencer medos, viver o propósito acima de tudo. Eu to bem cansada dessa balela e quero falar sobre coragem - uma coragem muito mais ligada à sensibilidade do que à força, a coragem de se libertar do que não faz sentido. Essa expectativa de ser um humano obstinado e invencível, por exemplo. Isso nem é humano, pra começo de conversa. 

Desrobotizar o modus operandi, não sufocar emoções, ouvir a intuição. Voltar a ter vontade genuína, não só dizer que a sente. Se fala muito em compreender o que te move, mas tudo isso tem mais a ver com o que NÃO TE MOVE e com o que você não é, mas tenta ser. Em vão.

Você já proferiu ou ouviu: quero ser mais rentável, escalável, quero um time foda, quero ser reconhecido como referência no segmento, quero ser grande, inovador, disruptivo. 

Quer mesmo? Ou te ensinaram a querer? Ou te fizeram acreditar que essa é a única forma de sucesso? Talvez queira de verdade e tudo bem. Mas entender o que é um objetivo legítimo e o que é uma condição criada é o meu ponto: a tecnologia das ideias, muito mais poderosa do que qualquer outra tecnologia. 

Quando uma tecnologia é uma merda, ela tende a se aprimorar ou desaparecer. O mesmo não se aplica às ideias. Tem muita ideia falsa que foi plantada e permanece viva porque as pessoas acreditam nela, especialmente quando falamos em trabalho. 

Uma ideia falsa se torna real quando criamos e adotamos sistemas de convivência que corroboram. Com a onda de incentivo ao empreendedorismo, criamos e adotamos práticas que fortalecem a glamourização do trabalho excessivo, por exemplo. 

Trabalhe mais, ganhe a mesma coisa, quem quer dá um jeito, esteja disponível o tempo todo, não reclame, sorria. A gente acreditou nisso e todos os sistemas favoreceram a prática dessa ideia falsa.

Abandonar Seletivamente o Passado

Imagine que você tá fazendo uma viagem sem data pra terminar. Invariavelmente, pra ter o mínimo de conforto e poder se movimentar rapidamente, você não vai poder levar tudo que foi acumulando no caminho. Questionar com frequência o tipo de bagagem necessária é uma das habilidades que merecem atenção. As experiências moldam as pessoas, mas nem toda experiência precisa se tornar uma regra. Às vezes, você precisa largar mão e se abrir pra novas práticas. Caso contrário, vai ser impossível criar o futuro.

O exercício que eu proponho aqui parece simples, mas é profundo. Consiste em refletir e até verbalizar aquilo que não faz parte de nós. Pode ser uma ideia falsa plantada, pode ser algo que deixamos de ser, pode ser até um mecanismo de autodefesa ou alimentação de ego. Tente respirar fundo e a cada expiração pense em algo que você não é. Se você se sentir confortável, diga em voz alta (verbalizar tem muito poder e a gente tende a ignorar isso). Alguns exemplos pra te ajudar:

  • -eu não sou empresária, eu sou a Marilia.
  • eu não sou minha formação, eu sou a Marilia.
  • eu não sou minha meta comercial, eu sou a Marilia.
  • eu não sou os clientes que atendo, eu sou a Marilia.
  • eu não sou o que minha família espera de mim, eu sou a Marilia.
  • eu não sou aquele conjunto de missão, visão e valores, eu sou a Marilia.
  • eu não sou meu faturamento anual, eu sou a Marilia.
  • eu não sou aquele prêmio que venci, eu sou a Marilia.

 

  • - insira aqui qualquer coisa que te condiciona, diga que você é você.

O que sobra? 

O que fica é exatamente aquilo que te dá coragem pra ser e transformar. É o que faz a vida ter um trabalho e não o trabalho ser sua vida. A gente se apega muito ao que o meio fez de nós. E o papo aqui é muito mais sobre coragem de transformar o meio, sacou a complexidade da parada?

P.s: Esse exercício foi inspirado kryia de Kundalini Yoga que eu fiz numa aula com meditação do desapego.. No krya original, a gente faz esse raciocínio 35 vezes junto com algumas transições de asanas (posturas). No 10° movimento, eu já não sabia do que poderia me desvencilhar porque é difícil mesmo. Tenta aí e me conta como você se sentiu depois?

Criando Meios Ideais Para Transformação

Depois de falar sobre o que precisamos abandonar pra recriar nosso meio, tá na hora de pensar sobre como esse meio pode funcionar pra que a gente tenha liberdade de transformação. Bora?

Dee Hock, fundador e primeiro CEO da Visa internacional, criou um modelo que pretende explicar sistemas - por sistemas podemos pensar numa estrutura social, empresas, a prática de uma liderança dentro de uma empresa, uma comunidade, a própria sociedade, um ser vivo ou a psique humana. É o tal Modelo Caórdico, manja desse paranauê?

Pra entender como isso pode te ajudar a repensar seu meio, é preciso observar cada círculo do modelo, dividido entre Colapso, Caos, Ordem e Controle.

  • Colapso é o extremo do agressivo do caos, dominado pelo ambiente destrutivo e o desmantelamento das estruturas, da organização, dos sistemas. Queremos? Às vezes, especialmente quando toca Rage Against The Machine.

  • Caos é o espaço criativo da incerteza, onde acontecimentos espontâneos, o improviso e o imprevisível ocorrem. Excelente lugar para o surgimento do novo (Opa! É aí que me refiro!), porém a falta de pragmatismo impede que haja continuidade e concretização de ações e planos, tornando difícil a estabilidade de formas. 

  • Ordem é o espaço regular da previsibilidade, onde os padrões se repetem. Epa! Padrões são importantes nas ações práticas, mas a gente não quer um ambiente estéril, excessivamente rígido, sem imaginação, certo?

  • Controle é o extremo dominador da ordem, no qual a imposição forçada de conceitos e vontades pré-determinadas paralisa toda a inovação. O espaço mecanizado que sufoca a vida. A gente já falou sobre desrobotizar as pessoas né? O controle é, de fato, o paradigma dominante na sociedade atual.

E suas intersecções:

  • Ordem-Controle: Essa intersecção é comum nos sistemas sociais. Em tempos de estabilidade, é um caminho seguro para se seguir, oferecendo previsibilidade e “mais do mesmo”, manter o status-quo. Mas tem aquele rolê de Mundo VUCA, lembra? Volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. Na presença de incerteza e necessidade de inovação, o apego cego ao caminho de Ordem-Controle pode ser extremamente ineficiente e gerar frustração, paralisando a criação.

  • Caos-Ordem, o Caórdico: O princípio de organização fundamental da natureza e da evolução. AGORA SIM, CARALHO! Se estamos falando em transformação positiva, é de caos e ordem simultaneamente que precisamos. Os sentimentos que encontramos no caminho caórdico freqüentemente são a ansiedade, o medo e a insegurança, tanto pessoalmente quanto em grupos. Quando reconhecemos estes sentimentos como nossos amigos (permitindo que continuemos nesse caminho) impressionantes e imprevisíveis resultados surgem espontaneamente internamente e na interação coletiva.  A alegria da descoberta e da criação é uma conseqüência natural quando temos a coragem de atravessar o caórdico. A transição do controle para o caórdico é o movimento iminente da nossa cultura global atual.

Vida Caórdica

Estrategizar o caos, provocar a ordem. 

Provocar o caos, estrategizar a ordem. 

Esse é o mantra. Uma eterna gangorra, com altos e baixos, mas sempre em comunicação. 

Num primeiro momento, quando eu falo em trazer o caos pra criação e assumir os moonshots como o mínimo necessário, uma galera pode pensar 'ah pronto, a ousada chegou' e é normal que a gente se sinta inseguro, afinal, estamos pilotando incertezas pra conseguir inovar o meio, a forma e o resultado, certo? É aí que a facilitação criativa se torna muito mais do que ferramentas, reuniões, eventos e encontros. A facilitação criativa, agora, é rotina. Assumir uma postura de liderança facilitadora pra si ou diante de um grupo é fundamental pra estrategizar o caos.

E o outro lado da gangorra? Tornar os processos mais eficientes, seja na autogestão ou como liderança facilitadora, é um desafio eterno, mas ter esse foco é o que nos ajuda a entender o equilíbrio entre caos e ordem. Quanto a estrategizar e provocar a ordem, alguns aspectos precisaram de um olhar mais crítico e organizado pra que eu pudesse ter mais tempo pra praticar o caos. Faz sentido? Dá uma olhada aqui nos pontos que demandaram mais ordem, no meu caso:

  • Senso de urgência: foco e assertividade nas tomadas de decisão.

  • Prioridades: com menos tempo, a gente tem que ter mais capacidade de priorização.

  • Prazos: prazos ajustados, não justos. Mas não tem lugar pra atraso, nem meu nem de quem trampa comigo.

  • Execução nível hard: na hora de fazer, eu viro um monstrão. Antes eu trabalhava muito e produzia menos do que atualmente. Louco né?

E esses são só alguns aspectos, hein? O fato é que falar sobre profissão líquida, carreira não-linear e vida caórdica é um papo eterno porque a transformação é constante e as experiências individuais ou coletivas moldam esse trajeto. Always Beta de verdade, no universo da tecnologia das ideias! Não é muito maravilhoso?

Por isso, acho que é uma excelente conversa pra um cafezinho ou um vinho. Me convida pra ser caórdica com você?  

 

Transformação Criativa
Marilia Silveira
Marilia Silveira Seguir

Estrategista, facilitadora e culture hacker. Viajante e viajona.

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