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O efeito dominó na reclassificação da Cannabis pela ONU

O efeito dominó na reclassificação da Cannabis pela ONU

E a oportunidade para os criativos


Quarta-feira, 02/12/2020, bombou a notícia. Não teve um veículo que não falou sobre. Cannabis foi retirada da seção de drogas mais perigosas com baixo potencial terapêutico. E a notícia é fantástica. Não quero ser repetitivo. Um Google e você encontra tudo sobre a votação na ONU que, baseada nas recomendações da OMS, levou a reclassificação da cannabis. Minha intenção é explorar a importância desta decisão, seus desdobramentos em oportunidades e o potencial de ajudar milhões de vidas.

Rompemos a barreira da negação a ciência

Quando a ONU classificou a cannabis em 1961, a ciência não tinha espaço na discussão. Desde a época, e antes até, já existiam relatos sobre a cannabis na prática médica. No entanto, o preconceito moral venceu os dados até então gerados. Política e preconceitos negam pesquisas científicas e não é nada que ainda não aconteça hoje, mas estamos melhorando, não é? E a reclassificação da Cannabis é uma prova disso. Hoje existem N estudos no âmbito da medicina que comprovam o potencial e os resultados do tratamento á base de cannabis para uma vasta gama de doenças crônicas. A OMS, desta vez, levou os dados mais a sério e fez a recomendação para a comissão da ONU. A comissão acatou, por 27 votos contra 25, e uma abstenção.

Um exemplo micro que trago da minha prática como diretor de operações de uma empresa de monitoramento remoto de pacientes com câncer também mostra isso. De todos os sintomas relatados pelos usuários, 64% deles é Dor, sendo este o sintoma mais comum. Quando investigo os casos percebo a seguinte lógica: Nos casos em que a dor é crítica/crônica? Morfina. Em casos mais críticos ainda, quais a Morfina não supre a necessidade do paciente em controlar sua dor. Medicamentos a base de Cannabis. Ué, porquê não poderia ter sido levado em consideração essa linha terapêutica antes dado os potenciais efeitos colaterais de opioides? Negação a ciência, estigmas, tabus, desinformação e por aí vai..

O Efeito dominó global

A reclassificação da Cannabis vai desencadear um efeito positivo nos avanços. Obviamente, esta decisão não é a primeira peça da fileira de dominós. Recentemente aprovado no Senado, o México está prestes a legalizar a maconha para uso recreacional adulto. Canadá fez isso em 2001 para uso medicinal e em 2018 para recreativo. Uruguai em 2013. Mesmo esses países terem comprado muito briga por aí, os avanços na regulação destes mercados avança rápido e, estes por sua vez, posicionam-se estrategicamente pra uma economia que vai movimentar dezenas de bilhões nos próximos anos. Como exemplo, está um decreto recente do Uruguai que pretende posicionar o país como um hub logístico internacional da maconha, provendo serviços para diversos países que avançam com suas políticas e que começarão a enfrentar problemas de cadeia de suprimento. Imagina o quanto isso não irá movimentar para economia do Uruguai?

A reclassificação da cannabis, por sua vez, é uma das grandes peças desta fileira de dominós que agora ganha força no desdobramento global. Contudo, a decisão da criação de políticas públicas sobre a cannabis varia de país para país. E cada um está no seu estágio de avanço. No Brasil, como estamos?

O Brasil foi um dos países a votar contra na comissão da ONU, porém de forma alguma estamos estagnados. Mesmo com controvérsias, a Anvisa vem traçando avanços desde 2014; em 2017, foi feito o registro do primeiro medicamento à base de CBD e THC e, em março deste ano aprovado a RDC 327/2019 que regulamenta a fabricação e comercialização. As atenções estão agora para o PL399/2015 que visa regulamentar o cultivo por entidades devidamente autorizadas. Essa regulamentação visa baratear o custo e promover acesso. Passos curtos que tendem a se alongar agora nos anos 20’s no Brasil.

O fato é que uma flexibilização global concomita com a diminuição de atritos políticos. E portanto abre as portas para desenvolvimento da nossa sociedade em todas as frentes.

  • Ciência: oportunidades de avanços e descobertas;
  • Governo: geração de impostos;
  • Economia: novos negócios e geração de renda;
  • População: novos empregos;
  • Meio-ambiente: alternativas a materiais tóxicos e não bio-degradáveis;
  • Milhares de pacientes: uma nova perspectiva às suas lutas diárias.

 

Oportunidade para avanços da ciência

Quando o assunto é ciência, eu estou longe ser alguém 100% apto para falar com propriedade, porém vou explorar o que tenho pesquisado e algumas notícias. Duas frentes me chamaram a atenção:

pesquisas cannabis

1º Brasil como referência em estudos de cannabis: O Brasil tem se posicionado muito bem no tema. A USP tem a maior produção científica mundial sobre canabidiol que abrange diversas áreas. O grande destaque, no entanto, está nos efeitos da administração deste composto para controle de ansiedade. Voltando alguns anos antes, em 1970, dois cientistas brasileiros da Unifesp descobriram a ação farmacológica do canabidiol em pacientes com epilepsia. Até hoje, referência no tema.

2º Atraso em Pesquisas Clínicas: em um nível mais específico que os estudos e artigos, pesquisas clínicas são realizadas em humanos. Com protocolos específicos, visam comprovar segurança e eficácia de procedimentos ou medicamentos. Infelizmente nesta área de medicina estamos anos atrasados. O documentário “O Cientista”, disponível legendado no Youtube, conta a história do pesquisador Raphael Mechoulam e suas descobertas sobre o THC. Me chamou a atenção quando o professor Mechoulam cita passagens de um novo marco, ou descobertas. Ele demonstra profundo descontentamento e finaliza com o seguinte imperativo: “..AND NOTHING HAPPENED”.

O que se espera é que rompendo a barreira de negação da ciência, mais estudos sejam viabilizados. O acesso a planta flexibilizado. E novas descobertas surjam.

Indo além durante minha pesquisa, fui até sites em que são registrados pesquisas clínicas e, confesso, me surpreendi. Um exemplo. Para a palavra cannabis medicinal, existem 201 resultados de busca para clinical trials. Você pode fazer suas próprias pesquisas nos bancos de dados global e nacional e encontrar em andamento alguma pesquisa na sua área de interesse. Outras palavras-chaves podem ser usadas para refinar a busca: medical cannabis, marijuana, CBD, canabidiol, cannabis fibromialgy, chronic pain, epilepsy cannabis, etc..

O ano de 2019 já foi o pico de produções sendo feitas e, ano contra ano o número tende a crescer. Como a ação da cannabis haje no sistema endocanabinóide que todos nós possuímos e visa dar equilíbrio ao nosso sistema central, há oportunidades para pesquisadores explorarem o uso em diversas áreas da nossa saúde e, consequentemente, novas descobertas que promovem o avanço da medicina para uma nova era: mais centrada no corpo humano e suas integralidades.

Oportunidade para novos negócios (e para os criativos!)

oportunidade de negócios na cannabis

Nem só de aplicação médica vive a cannabis. Aliás, sua utilização mais conhecida está no uso recreativo. No entanto, existem outras formas de uso da planta pouco conhecidas e com alto potencial econômico. É o exemplo do cânhamo. Retirado das fibras e caules da planta Cannabis, o cânhamo tem uma variação de aplicações que beneficiam mercados como o da construção civil, têxtil, e também, uma alternativa sustentável ao papel e plástico.

A planta cannabis possui uma infinidade de variações de acordo com a sua composição. Dentre mais de 200 canabinóides, os mais conhecidos são o tetrahidrocanabinol (THC) — com potencial psicoativo — e o canabidiol (CBD) — sem potencial psicoativo. Para uma planta de cannabis ser considerado cânhamo, ela deve conter um limite máximo de THC de 0,3%, o que não causaria efeitos psicoativos.

Mas vamos voltar ao uso da cannabis e explorar a movimentação da economia relacionada ao potencial medicinal — e a oportunidade de ajudar milhares de pacientes com patologias crônicas. Primeiro, o que todo empreendedor que busca entrar no mercado de cannabis tem que ter em mente é a alta regulação que existe sobre. Uma pequena mudança nas políticas criadas pode afetar todo um modelo de negócio pensado para resolver algum problema desta cadeia de valor. É preciso muita resiliência e criatividade. As regulações até então criadas dificultam negociações e colocam muitas variáveis na mesa. No entanto, são nas dificuldades e regulações que existem as oportunidades, não é mesmo? Casos famosos como Uber, na mobilidade; Nubank, no sistema financeiro; e Loft no mercado imobiliário nos mostram isso.

Portanto, ler e acompanhar a PL 399/2015 citada a cima pode ser um bom passo para guiar os brainstorms sobre modelos de negócio. Oportunidades como rastreio da cannabis, transporte e armazenamento, identificação genética de sementes, importação e exportação, facilites, aplicativos para ajudar pacientes no acesso, educação e adesão são algumas frentes de oportunidades que surgem neste novo mercado.

Se eu pudesse dar uma dica, com base na minha experiência com plataformas digitais e monitoramento remoto de pacientes com câncer, seria que o paciente deve estar no centro da resolução do problema. De nada adianta criar — melhores e mais rápidas — tecnologias de rastreio se essa, por sua vez, atrasa ou torna mais caro o acesso de medicamentos a pacientes.

Colocar o paciente no centro significa promover acesso, prezar pela segurança, reduzir custos marginais e personalizar o tratamento ao indivíduo.

As federações tem a sua obrigação de regulação. Os empreendedores, o dever de resolver problemas. E é nesse segundo que acredito que surgem as maiores oportunidades.

Oportunidade para quebrar o tabu.

Nota mental: começar por nós mesmos!

O potencial da cannabis sativa em ajudar milhares de pacientes é real. Fato que a ciência comprova. O que não se sabe ainda, com precisão, é os impactos na sociedade quando há uma flexibilização em torno de uma planta que sim, possui componentes psicoativos, e que pode ter efeitos negativos de acordo com o tipo, quantidade e quem está sendo utilizado. E esse é o grande receio de uma sociedade conservadora que por anos conviveu com desinformação sobre a cannabis. O primeiro passo é buscar informações e confiar que experts em saúde pública, farmacologia, empreendedorismo e direito irão acompanhar e cobrar governantes por políticas públicas bem feitas.

Um dos temas mais latentes é os possíveis efeitos da flexibilização entre os jovens. Pensando nisso, pesquisadores estão estudando o assunto em países em que a legislação está mais avançada. Nos EUA, por exemplo, as hipóteses não tem se comprovado. Um estudo publicado na JAMA, revista referência em publicações científicas, mostra que, com a aprovação das leis de flexibilização da maconha diminuiu o uso da cannabis entre os jovens.

“Jurisdictions that have legalized medical marijuana, decriminalized possession of marijuana and/or other drugs, or tolerated limited, retail sales…have not experienced significant, if any, increases in marijuana or other drug use.” American Public Health Association

Durante anos, ativistas vem pedindo a legalização da cannabis, e parece que agora estamos cada vez mais perto. O efeito dominó da reclassificação da cannabis pela ONU está prestes a começar e cabe a nós nos informarmos para poder quebrar os tabus que permeiam a cannabis e por anos tomamos como verdades.

Tem uma frase que um amigo de faculdade, hoje sommelier de cannabis no Canadá, Antonio Tiergarten, fala e é propícia para finalizarmos este texto. A discussão não é mais se a cannabis vai ser legalizada, e sim, quando.

É preciso dos criativos para a transformação do que conhecemos hoje por sociedade, disso não temos mais dúvidas. Os meios que esses criativos se utilizarão é que serão diversos.

Eu vejo na Cannabis um dos meios de alta escala para construção de uma nova sociedade. Se você também vê, vamos trocar uma ideia? Manda um "salve"


Texto original publicado no Medium:
http://bit.ly/texto-orginal-medium-reclassificacaodacannabis

 

 

Transformação Criativa
Luiz Felipe dos Prazeres
Luiz Felipe dos Prazeres Seguir

Gente boa e pai da Alice, me formei em engenharia e tô aprendendo a escrever. O restante do dia batalho para mudar o mercado de saúde.

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