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O "American Way of Life" no Brasil

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Desde muito jovens fomos ensinados que é fundamental aprender inglês no Brasil, mas nunca nos disseram exatamente qual o motivo desta necessidade. Uns falam que é para conseguir um emprego, outros que as portas se abrem, mas... como exatamente?

Lembro-me de vivenciar cenas ridículas e vexaminosas no transporte público, onde grupos de jovens ficavam conversando entre si em inglês para parecerem superiores e inclusive riam de quem não compreendia. E eu só pensava "céus, é pra isso que precisa aprender inglês?".

Essa cultura de tudo que o que vem de fora é superior, elitista e excludente se estende ao meio acadêmico e corporativo. Os babacas lá da minha adolescência cresceram e ao que tudo indica estão dentro das empresas, replicando estes e outros comportamentos absurdos.

Realmente não compreendo essa hipervalorização dos Estados Unidos no Brasil, replicamos a cultura, o consumismo, as músicas, utilizamos palavras em inglês no cotidiano (até nas novelas) quando temos um idioma riquíssimo e muito mais completo. Por aqui encontro muito mais pessoas que sonham em ter coisas, do que ser alguém.

No Brasil paquera virou crush, dar um perdido virou ghosting e algo legal virou top.

Sou formada em Design de Produto e após uma temporada na Espanha, onde me aperfeiçoei em Artes Visuais e Educação voltei pro Brasil. Confesso que levei um susto! Na minha área de atuação cliente virou customer ou patrocinador, a área de pesquisa virou research e o desenvolvimento de produtos foi picotado em pedaços, o discovery, research e owner - uma nova versão para a palavra chefe.

Tudo o que aprendi na faculdade virou uma série de ferramentas de imersão de finais de semana, os bootcamps, e o tal Design Thinking que estudamos por quatro anos virou um pacote que pode ser parcelado em 12x no cartão.

O designer é um profissional curioso e questionador em essência, nosso trabalho vai muito além de ferramentas de finais de semana com nomes em inglês. Estamos sempre conhecendo e estudando novas culturas, artes, tecnologias e em profundidade o ser humano e o comportamento em sociedade. Tudo isso é amadurecido conforme vamos envelhecendo e ganhando experiência de vida.

Para todas as vagas de emprego nacionais, as quais não teremos contato com nenhum chefe, ou cliente estrangeiro pedem o domínio de inglês. É necessário ter o domínio do idioma para aprender meia dúzia de jargões da área, ler livros técnicos e operar softwares? Desde que eu era adolescente e trabalhei de operadora de telemarketing já pediam isso e o máximo que eu usava era pra falar a palavra callcenter.

Nunca se interessaram pela minha experiência na Espanha e o que aprendi de design na Europa. Quando falamos em intercâmbio automaticamente as pessoas imaginam os Estados Unidos e eu nunca quis ir nem pra Disney, quanto mais estudar, ou trabalhar pelas bandas de lá.

Me questiono quando seremos um país maduro e independente se vivemos copiando outras culturas, ao invés de valorizarmos o nosso bom e velho tupiniquim, com muito borogodó nesse terra brasilis. O Brasil é um dos países mais ricos que conheço por ter essa mistura de sotaques, costumes e jeitos de ser, somos o povo mais criativo do mundo, mas jamais seremos valorizados enquanto importarmos soluções de finais de semana com nomes de treinamento militar, nós das faixas de karatê e aí vai. O lance é observar, absorver e criar a partir da experiência brasileira.

O inglês é importante? Sim, se você tiver clientes estrangeiros, for um exportador, ou pretende viajar pros Estados Unidos. Eu viajei a Europa falando espanhol e português, usei o nosso idioma até na França! 

A título informativo 9 países do mundo tem o português como idioma oficial e é utilizado por mais de 280 milhões de pessoas. E eu adoraria que fosse valorizado também no Brasil, principalmente no meio corporativo.

Tim tim! Sai com esse cheers pra lá, sai.

 

 

Transformação Criativa
Tatiane De Cássia Ortega Rausch
Tatiane De Cássia Ortega Rausch Seguir

Outsider, Designer de Produto, Mestre em Artes Visuais e Educação, UX/UI Designer, Web Designer, Designer Gráfico e estudante na Pós-Graduação em Inteligência Artificial.

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