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Flexibilidade cognitiva como habilidade de adaptação e aprendizado constante

Flexibilidade cognitiva como habilidade de adaptação e aprendizado constante

Estamos consistentemente repetindo frases por aí como: "- Ai, eu adoro coisas novas! O futuro nos proporcionará boas mudanças! Temos que mudar um pouco, sabe?" mas sabemos que na prática não é bem assim. 

Calma, não estou dizendo que estamos mentindo ou não gostamos de coisas novas, mas gostamos quando NÓS decidimos. Gostamos do sabor novo quando queremos ir naquele restaurante que todo mundo comenta, ou fazer uma viagem pra Ásia porque nossos amigos falaram que é incrível". Gostamos de começar no emprego novo na empresa que sempre quisemos estar, ou mudar pra casinha nova onde vamos deixar tudo do nosso jeitinho… Mas e quando não temos controle algum sobre a mudança como quando enfrentamos uma demissão? Ou a empresa muda completamente a estratégia que estava seguindo e você não concorda? Ou ainda quando uma pandemia te obriga a rever todos os seus hábitos de existência? 

Resistência à mudança não é assunto novo quando o tema é comportamento humano. Acredito que quase todo mundo já passou por uma experiência traumática de após uma demissão ou quando a empresa resolver mudar algo que impactava direto o nosso trabalho, certo? Ou quando teve um plano pessoal completamente desfeito por algo que não tinha qualquer controle. Isso porque embora nosso discurso seja automático pra dizer que ~adoramos questionar o status quo~ costumamos ter uma resistência muito grande quando circunstâncias externas simplesmente nos obrigada a mudar alguma coisa em nossas vidas. 

Acontece que o mundo segue mudando, você gostando ou não. Não tem choro nem vela, o coronavírus não vai espalhar mais devagar só pra você se acostumar com a situação. Assim como as empresas também não. O google não vai processar menos informações e o volume de dados que geramos a cada dois dias e que equivale a toda a geração de dados do início da civilização até 2003 também não vai diminuir. 

Yuval Noah Harari nos conta em Sapiens que na história da humanidade passamos por três revoluções que impactaram significativamente a humanidade:

  •  Revolução cognitiva: que fez com que o ser humano se tornasse independente das limitações biológicas e passasse a desenvolver a sua memória, fala, linguagem; 
  • Revolução agrícola: onde as pequenas sociedades caçadoras-coletoras passaram a fixar-se nos lugares após desenvolverem técnicas de plantio e entender que poderiam passar a estocar comida;
  • Revolução científica: que ainda estamos vivenciando e onde criamos o sistema econômico, inventamos o dinheiro e começamos aplicar o conhecimento que sabemos para "brincar de Deus", onde a ciência vem ocupando espaço para cada vez mais automatizarmos o mundo, melhorar nossa qualidade e expectativa de vida, e explorar a inteligência artificial. 

É um pouco injusto resumir uma obra esplêndida de uma maneira tão esdrúxula, mas o contexto é importante para chegar onde quero: não temos maneira de escapar desse "novo normal" - e que aqui não me refiro ao mundo pós coronavírus - e sim o avanço tecnológico que nos faz a cada dia mais não dar passos largos, mas talvez saltos e as vezes, até uma pulada de muro. Meu ponto aqui é: não importa o quanto sejamos resistentes à mudança, o mundo não vai parar para atender às nossas necessidades. 

 

Mas ainda temos o impacto geracional nas nossas carreiras

Lembro bem de um tio meu, hoje falecido mas que quanto eu era um pouco mais jovem ele estava em processo de se aposentar: Contador, 35 anos (ou mais!) de carreira. Trabalhou todos esses anos na mesma empresa. Era o exemplo de sucesso de família. E realmente ele foi. Pai de família, sustentou os cinco filhos, educou, todos estudaram tiveram boas formações. Tinha casa própria, carro, viagem de fim de ano. Não tinha um vocabulário cheio de buzzwords. Falava até fluxo de caixa ao invés de cashflow (o que acho um luxo nos dias de hoje rs). Eu fico muito feliz que ele tenha alcançado o sucesso que alcançou na sua geração, mas hoje em dia, podemos replicar a "receita" para ter o mesmo êxito? Particularmente duvido que poderia dar certo.

Minha geração - nascidos principalmente nas décadas de 80, 90, só pra esclarecer - ainda sofrem o impacto da geração do meu tio. Lembro que quando eu tava na época de fazer o vestibular sofri - assim como muito dos meus amigos - a pressão por escolher uma profissão que "desse dinheiro". Eu que era uma apaixonada por comunicação (e ainda sou) e sonhava em ser jornalista optei pelo curso de Administração - afinal, no pior das hipóteses eu teria um leque de opções pra trabalhar numa profissão estável, duradoura e poderia até fazer uns concursos públicos como servidor da PF ou da PRF (oooooi???).

Isso foi há quase 14 anos. Eu ainda tinha uma ideia de carreira linear e que bastava se esforçar pra encontrar um emprego (ou um concurso) legal, talvez se investisse numa pós pra um salário melhor, dar o meu melhor nesse emprego e  pronto. Sucesso garantido. 

 

Pra onde o futuro nos leva? 

Gostaria de ter a reposta pra esse pergunta, e pra não frustrar vocês já adianto, não tenho. Mas tenho certeza absoluta que não é pelo caminho que a Débora de 14 anos atrás caminhava. 

Ainda que as especulações sejam muitas, há quem diga que estamos caminhando para o fim da humanidade como é o caso de Stephen Hawking que alertou em alguns momentos de sua carreira que deveríamos buscar outros planetas para viver e onde Elon Musk já tem empreendido há algum tempo, sabemos que caminhando para uma vida extraterrestre ou não, a tecnologia e principalmente a inteligência artificial serão (e já são) parte da nossa vida. Para você que acha que a IA ainda é um futuro distante saiba que: 

  • quando você liga do Waze ou navega pelo Google Maps, você tá usando IA;
  • comprou algo pela internet e a compra levará 7 dias para chegar? As vendas são baseadas em previsões feitas por IA para otimizar a logística e te dar uma pravisão;
  • como a gente vivia antes do google? Bom, a gente vivia num mundo com muito pouca IA, hoje até transformamos o ato da busca em verbo: googlar. Vale ressaltar que esse googlar está numa curva ascendente das buscas por voz - a siri, Alexa e o google assistance são mais belo exemplo de IA.
  • E falando em assistentes de voz, o papel delas não vai só até buscas no google. Hoje voce pode fazer compras online, verificar previsão do tempo e até automatizar a sua casa através dessas belezinhas. 

Os exemplos continuam e há uma lista enorme deles. 

Não temos ideia do que o futuro nos espera, mas sabemos que ele muda, e muito rápido. Especula-se que até 2050 a inteligência artificial e a robótica terão encontrado um jeito de fazer quase tudo hoje que dependemos do homem fazer, o que muda, e drasticamente, o futuro do trabalho e das nossas vidas. Se vamos finalmente realizar nosso sonho de infância viver como nos Jetsons não temos como prever. Só podemos ter cada vez mais que a mudança para esse mundo tecnológico avança em passos largos.

Mas aí você pode estar pensando, será mesmo que vamos ver uma mudança tão rápida assim? Bom, vamos parar para pensar de uma maneira um pouco mais lógica:

Espera-se que, ao menos aqui no Brasil, uma pessoa trabalhe pelo menos, de 30 a 35 anos ante de se aposentar. Quantas profissões existem hoje e que não existiam há 10, 15 anos ou ainda eram muito incipientes? 

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Embora tais profissões - as que surgiram e as ameaçadas de extinção - sejam de áreas diferentes, elas tem uma coisa em comum: a tecnologia. Seja porque precisamos de mais profissionais denominando tais mecanismos seja porque as profissões poderão ser automatizadas - ou pelo menos boa parte do core delas. 

Estima-se ainda que cerca de 85% das profissões que existirão em 2030 ainda não existem e serão criadas durante a década. O que mais uma vez que leva a crer que aquele modelo de sucesso do meu tio - e que era o meu exemplo - definitivamente parece que não funciona mais. 

A Flexibilidade Cognitiva nesse contexto

Se tais previsões se confirmam na próxima década não posso afirmar e nem encontrei fontes que afirmem com 100% de certeza. Novamente, sobre o futuro temos hipóteses, não bolas de cristal. E o que nos cabe diante desse cenário de mudanças e incertezas é nos preparar para ele. 

Há algum tempo eu venho refletindo sobre o assunto e tentando entender como seria possível se preparar para um mundo tecnológico e incerto. Nas minhas leituras explorando pautas que estão relacionadas com as habilidades necessárias aos profissionais do futuro, tecnologia, comportamento humano, futuro do trabalho, entre outras. E dentro de todo esse apanhado o que posso dizer é que  - ao menos para mim - flexibilidade cognitiva é uma habilidade que cada vez mais se torna necessária. 

Por trás desse nome pomposo temos um conceito relativamente simples que é a nossa capacidade em transitar em diferentes áreas do conhecimento e usar nossa capacidade de aprendizado e conexão para desenvolver novos conhecimentos. Em outras palavras, poderia dizer que a flexibilidade cognitiva é a nossa capacidade de aprender coisas novas constantemente. 

 

Como desenvolver flexibilidade cognitiva 

Flexibilidade cognitiva não é uma habilidade que te ensinam na escola, faculdade ou no curso intensivo. Não é através de frameworks, workshops e role plays que você vai tirar seu certificado na disciplina. Não que essas coisas todas não ajudem, não me levem a mal. Mas o ponto aqui é: não é ter um curso ou não, mas o que você está aprendendo constantemente? 

Eu sempre gosto de fazer o exercício: o que eu poderia fazer caso minha profissão não existisse mais. Ou se eu tivesse que começar uma carreira do zero, por onde eu começaria? 

No meu entendimento, a resposta sobre como desenvolver essa habilidade está num outro conceito chamado lifelong learning, que significa ser um aprendiz constante, nunca deixar de aprender - mas de uma maneira consciente. E para que nos tornemos aprendizes ao longo da vida precisamos deixar de lado duas armadilhas do processo de aprendizagem:

  1. nossa arrogância de acharmos que já sabemos muito, já somos bons o suficiente;
  2. nossas crenças limitantes de achar que não somos bons nesse assunto ou é tarde demais para se aprofundar numa habilidade nova. 

Dito isso, se chegamos até aqui você deve estar pensando: "Será que deveria começar uma faculdade nova? Uma pós graduação?" Talvez a resposta possa ser essa assim, mas aprendizado não vem apenas da educação formal, e você pode aprender várias habilidades úteis num curto espaço de tempo, tudo depende do seu interesse, organização, e prática. 

Estudar e aprender coisas novas é a coisa mais acessível pra quem tem uma estrutura mínima, como um computador - muitas vezes até o próprio celular - e uma boa conexão com a internet. 

 Mas sentar a bunda na cadeira e passar horas a fio estudando não é a unica maneira de aprender. Aprender também é se aventurar entre livros, filmes, podcasts, participar de eventos, buscar mentorias, assistir vídeos no youtube, testar uma receita nova, consumir contéudo em outro idioma, conhecer novas pessoas para poder a ter contato com novas temáticas. 

Podemos dizer que a flexibilidade cognitiva está diretamente conectada com a nossa capacidade de conectar ideias. Mas como as ideias serão conectadas se não ampliamos nosso repertório? 

Entendendo que não há a receita pronta, é importante começar a explorar. Comece por algum lugar, seja mudando os perfis das pessoas que você segue no instagram, escolhendo um post blog sobre assuntos diferentes - e de fontes diferentes, assiste um documentário de um assunto que vc sempre achou interessante, mas "complicado" demais pra você. 

Espero em breve poder explorar um pouco mais do assunto e trazer novos insights sobre o tema. Até lá, o que você pensa sobre como podemos desenvolver nossa flexibilidade cognitiva? 

 

Transformação Criativa
Débora Brauhardt
Débora Brauhardt Seguir

Sócia e Co-founder na B.done, especialista em Gestão da Criatividade e Inovação, mudando de cidade (e país) de tempos em tempos. Fã de tudo que precisa fermentar um tempo pra ficar bom: vinhos, cervejas, queijos, pães, ideias e boas conversas.

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