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As Armadilhas do Falso Empoderamento Feminino

As Armadilhas do Falso Empoderamento Feminino

Toda semana, às quartas-feiras, eu publico um artigo aqui na plataforma. Um combinado feito com time da Transcriativa desde fevereiro desse ano.

Eu amo escrever e estar aqui é um presente pra mim. Vejo essa plataforma como um portal para que eu espalhe minha mensagem para o mundo junto com uma diversidade de gente incrível que também escreve por aqui.

Semana passada, como você sabe, foi comemorado o Dia Internacional da Mulher, uma grande oportunidade para eu escrever sobre protagonismo da mulher, empoderamento feminino e equidade de gênero, assuntos essenciais no universo de Diversidade & Inclusão; o meu universo. E eu tinha tanta coisa pra escrever, para compartilhar...

Mas eu falhei. EU FALHEI. Esse foi meu pensamento quando percebi que não conseguiria escrever a tempo para publicar na quarta, nem na quinta, muito menos na sexta-feira. E junto com este pensamento, vieram os sentimentos comuns à todas as mulheres: culpa, vergonha, medo. Culpa por não ter cumprindo o compromisso firmado, vergonha do que o time da Transcriativa pensaria sobre mim e das pessoas que me acompanham e esperam o artigo semanalmente, e medo de não conseguir mais escrever. 

Quanta bobagem!

Para publicar na quarta, eu sempre escrevo no final de semana anterior. Levanto às 6h no sábado e no domingo, entro no escritório e sinto o que devo escrever. Isso mesmo, eu sinto. E sentindo, as ideias vêem, as referências aparecem e meu dedilhar datilográfico engata a quinta marcha e concebe, dá existência ao texto. É quase que de uma vez só. Depois ficam os refinamentos que às vezes vêm com os pitacos de gente que eu confio (é colaboração que fala, ne?).

Mas o final de semana anterior foi incomun. Um incrível projeto entrou na minha vida e tomou meu sábado. Disponibilidade de tempo para estar, compartilhar e sentir aquele novo projeto. Foram 2h de inspiração numa reunião inicial e o restante do dia alternando entre transpiração e uma pitada de piração. Sabe quando você não acredita que algo está acontecendo e se belisca quase que o tempo todo pra ver se vai acordar? Foi por aí.

E além disso, eu tinha uma semana inteira de palestras e compromissos sobre o tema da mulher pela frente. Planejar, criar, elaborar, rechear, dinamizar. Some a isso todos os papéis domésticos e familiares que fazem parte da rotina de qualquer mulher. Foi um verdadeiro caos!!

Eu trabalhei cerca de 16h por dia, todos os dias da semana e, a cada dia que passava, ia percebendo que não conseguiria escrever meu artigo. Me senti uma impostora.

Agora, pega a incoerência.

Nas palestras da semana, falei com mulheres e homens sobre a importância de desconstruirmos o mito social de que a mulher é multitarefas e sabe fazer tudo ao mesmo tempo. Falei da cruel romantização do acúmulo de responsabilidades que coloca a mulher num patamar de heroína, guerreira, mulher maravilha.

Há quem ouse chamar isso de empoderamento feminino. Eu chamo de armadilhas.

Quanto mais a mulher acredita que deve dar conta de tudo, que não pode falhar, mais ela se cobra, se culpa, pede desculpas por tudo e para todos, mais 'sim' ela diz, quando deve dizer 'não', mais se negligencia; mais exausta ela fica.  E, quanto mais ela normaliza essa condição, porque acredita que está empoderada, mais danos físicos e emocionais ela vai acumulando, num círculo vicioso que nada mais é do que um autocárcere.

Há muitos conceitos sobre empoderamento feminino e também muita banalização. Eu acredito na legitimidade da vida. Ela vai apontando como as coisas realmente são e os caminhos para construir círculos virtuosos para a nossa vida. Basta estarmos no nosso centro para colher os sinais.

Portanto, quando encerrei minha semana e percebi o quão fantástica ela foi, por eu ter conseguido mobilizar e impactar centenas de pessoas, semear suas mentes e corações, ajudando a criar uma intencionalidade coletiva para construir uma sociedade mais humana, justa, equilibrada, inteligente, criativa e inovadora para homens e mulheres, eu me senti realmente empoderada.

Pra mim, o real Empoderamento Feminino é autoconhecimento, liberdade e ação.

Quanto mais a mulher se conhece, mais toma consciência de quem é, porque vai acessando seus porões, e tirando a quinquilharia que lhe colocaram durante a toda a sua vida (que ela mesma ajudou a colocar). Vai, também, descobrindo seus tesouros que sempre estiveram ali esperando para serem apresentados ao mundo e torná-la mais.

Essa consciência vai gerando um desconforto que clama pela liberdade de ser quem ela realmente é, transcender seus papéis sociais e fazer as escolhas que a realizem como ser humano.

Agora, o que empodera mesmo é a ação; e ação útil e funcional para si, em primeira pessoa. Esse é o grande desafio da mulher porque esta ação não é a tarefa feita que ela acredita que lhe define. Não é o artigo que foi, ou não, publicado ou a casa que está de pernas proar porque ela está priorizando outras atividades. Esta ação é o seu próprio ser, se fazendo em movimento, entregando para o mundo seus tesouros e transformando-o num lugar melhor.

O verdadeiro empoderamento expande a mulher em inteligência, coragem, espontaneidade e, principalmente, em autogenerosidade que acolhe as falhas da rotina para dar a passagem para plenitude da vida.

Um abraço com uma semana de atraso, mas verdadeiramente empoderado!

Vivi :)

Transformação Criativa
Viviane de Araújo
Viviane de Araújo Seguir

Consultora empresarial, escritora, empreendedora e mãe. Ajudo as pessoas a ampliar o olhar sobre diversidade e desenvolver competências para tornar o mundo mais inclusivo.

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