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A [RE]descoberta da CRIATIVIDADE

A [RE]descoberta da CRIATIVIDADE

Sobre o olhar e a imaginação

“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.” Manoel de Barros

Todos nós somos dotados de certa capacidade imaginativa. Não há dúvidas sobre isso. Com base nessa premissa, é possível supor que somos todos criativos - só que não. Nós nascemos com esse superpoder, mas nem sempre continuamos com ele. A criatividade é uma habilidade que precisa ser estimulada e desenvolvida. O dilema da criatividade surge nesse ponto, na hora de adicionar os ingredientes pra fazer a massa crescer.

A metáfora com o bolo é recorrente, mas muito apropriada. Não se trata de uma receita única. Ninguém pode garantir que a receita de bolo daquele blog vai funcionar no seu forno. E mais, se da primeira vez solou, você não vai querer repetir a receita da mesma forma, não é mesmo? Então porque nos privam do direito de improvisar? Não seria muito mais interessante poder pelo menos mudar os ingredientes e criar assim nossas próprias receitas?

Acredito que sim. O problema é que na medida em que crescemos, vamos aprendendo a fazer as coisas da forma “certa”. Aprendemos falar, escrever, estudar, trabalhar e até a jogar seguindo manuais baseados na cópia. A necessidade de aprender a ser adulto e de acertar nos afasta de hábitos muito simples como: desenhar, brincar, inventar histórias etc. Isso tudo é muito cruel e, de certa forma, limita nosso potencial criativo e atrofia nossa capacidade criativa.

Esse ritual bizarro de padronização do imaginário coletivo, sufoca nossa curiosidade e limita nossa imaginação. Em sua obra A Imaginação, Jean Paul Sartre, se refere ao pensamento cartesiano que define a imagem como um produto da ação mecânica dos objetos exteriores sobre o nosso corpo. Já a imaginação, é produto da relação entre o nosso “eu” e estas imagens. Essa relação pode se dar de forma passiva, quando apenas recebemos a imagens com pouca ou nenhuma interação, ou ativa, quando construímos novos significados e criamos nossos hiperlinks.

Me deparei com o conceito de “imaginação ativa” pela primeira vez no livro Pense como um artista... de Will Gompertz. Como muitos autores, Gompertz defende a criatividade como um talento inato mas boas ideias nem sempre nascem prontas. Muitas vezes elas surgem simples e incompletas.

Que tal testar sua capacidade de imaginar? O exercício é bem simples: comece escolhendo um objeto, pode ser uma caneta, uma xícara, um celular, uma fruta ou qualquer coisa que esteja próxima e você consiga pegar. Em seguida explore este objeto usando alguns dos seus sentidos – visão, tato, olfato, paladar. Depois tente inventar um nome novo para essa coisa. Depois tente imaginar também outras funções para essa coisa, diferentes da função original. Tente fazer isso e só depois continue a leitura desse artigo.

E aí, como foi? Muitas pessoas ficam desconfortáveis com essa experiência, mas talvez tenha sido assim que surgiu a ideia que deu origem ao primeiro celular com câmera. Esse desconforto acontece porque, desde muito cedo, nos acostumamos a receber as informações de forma muito pronta. Tudo chega muito mastigado sem espaço para ambiguidades e isso empobrece muito nosso diálogo com o mundo. Quando somos ainda bem pequenos aprendemos a perguntar o nome das coisas e para que elas servem. Mas e se, em vez de responder prontamente, pais e educadores nos devolvessem essas perguntas? Tenho certeza que as respostas seriam surpreendentes.

Para desenferrujar nossa máquina de criar, precisamos resgatar essa nossa curiosidade primitiva e estimular nossa capacidade investigativa. Para o publicitário David Ogilvy, “Grandes ideias vêm do inconsciente. Mas seu inconsciente deve estar bem informado senão sua ideia será irrelevante.” Precisamos alimentar nosso repertório simbólico para multiplicar os pontos e facilitar as conexões, mas isso é assunto para um outro artigo.

Deixe nos comentários sugestões de temas, dúvidas ou críticas. Sua participação certamente me ajudará a imaginar temas para os próximos artigos. Até lá.

Marcelo Ghizi é Mestre em Ciência da Arte pela UFF, criador do curso de Criatividade Aplicada da Casa Firjan e da @criosfera.br

Transformação Criativa
Marcelo Ghizi
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Educador, criador da criosfera (@criosfera.br www.criosfera.com.br). Mestre em Ciência da Arte - UFF-RJ (2006) e Bacharel em Comunicação Social / Publicidade (1999). Criador de conteúdo e designer na Casa Firjan (www.casafirjan.com.br).

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