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A contemplação é a árvore que gera criatividade

A contemplação é a árvore que gera criatividade

Nunca, pelo menos nos últimos oito anos da minha vida, eu havia sentido que era permitido - por motivos de força maior - ter uma rotina mais lenta em meio à velocidade da sociedade na qual existíamos (aquela de antes do vírus, lembra?). Eis que o mundo nos deu uma licença poética, ou talvez uma imposição, para ficarmos mais recolhidos.

Parece-me como um tempo de revisitar aqueles sentimentos relegados pela aceleração da vida. Abrir velhas gavetas e limpá-las. Foi justamente em uma das minhas “limpezas de gavetas” da quarentena - no sentido literal mesmo - que encontrei um antigo recorte de jornal. Era uma coluna da Lya Luft, intitulada “A Mentirosa Liberdade”.

Nela, coincidentemente ou não, a autora fala justamente sobre a enganação vendida pela sociedade de que a liberdade só se alcança pelo produzir e consumir. “Liberdade não vem de correr atrás de deveres impostos de fora, mas de construir a nossa própria existência”, escreve ela.

Isso, a meu ver, tem total relação com diminuir nossa cobrança interna e, a partir daí, permitir que o flow criativo aconteça. Porque, como disse a Rafa Cappai no 12º episódio da Transcriativa, a criatividade não nasce de fórceps.

Topa aprofundar um pouco mais a reflexão?

A importância da pausa para discernir e criar

Em termos criativos, portanto, a desaceleração do ritmo da sociedade pode ser uma chance de reavaliarmos nossa forma de existir no mundo, nossos meios de consumo, como estamos criando nosso trabalho - e, claro, nos recriando a partir dele. Sinto que, na última década, perdemos um pouco a noção de tudo isso.

Principalmente porque fazer pausas, como vendem alguns gurus por aí, tornou-se algo para os “fracos”. Bonito mesmo era a gente se arrebentar, trabalhar até de madrugada. A tal glamourização do workaholic

Não é de se estranhar que um levantamento publicado pela International Stress Management Association tenha apontado que cerca de 30% dos mais de 100 milhões de trabalhadores brasileiros sejam acometidos pela Síndrome de Burnout (aquela do esgotamento profissional). Acontece que quem vende esse modelo de trabalho até a exaustão se esquece de algo essencial.

Algumas das mentes mais criativas e brilhantes da humanidade tiveram seus momentos de ápice da genialidade justamente nos instantes contemplativos. Newton e a maçã. Einstein, que disse: “penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio; e eis que a verdade se me revela”.

Ainda em uma Live que assisti recentemente com a artista Anelise Bredow, que possui um belíssimo atelier de cerâmica aqui perto da minha cidade e é Mestre em Indústrias Criativas, me pareceu que tudo isso ficou ainda mais claro. Ela definiu a criatividade como nossa capacidade de olhar para os objetos e ver além do usual.

Uma xícara não precisa ser só uma xícara. Pode ser também um porta-lápis. Ou um vasinho de flor.

Perceber tais nuances só é possível quando contemplamos. E, para contemplar, precisamos compreender que o tempo válido de nossa existência não é somente aquele em que produzimos. Precisamos enxergar que olhar para a Natureza, ver os traços e as cores de uma flor, observar os contornos de uma folha...tudo também é parte do processo criativo.

Criatividade como ferramenta do futuro

Isso tudo pode até parecer meio abstrato ou “paz e amor” demais para você, caso seja uma pessoa super pragmática (como eu mesma um dia já fui). Mas lhe garanto que, no fim das contas, tudo o que estou falando aqui adquire contornos práticos e transformadores.

Um exemplo que adoro citar é o da pesquisadora do MIT, Neri Oxman, cujo trabalho ganhou destaque na série Abstract: The Art of Design - disponível na Netflix - e sobre a qual já escrevi em um artigo do meu blog, chamado “Abstract: devaneios sobre como arte e design transformam o mundo”.

Basicamente, ela inventou uma profissão baseada na construção de materiais bioarquitetônicos. Hoje, trabalha em um departamento que tem por objetivo justamente criar soluções sustentáveis para construção, repensar o design e a manufatura de processos que degradam o meio-ambiente.

Ela vai para a Natureza, estuda os componentes das folhas, a matéria-prima das cascas de frutas, observa os processos de produção de abelhas e bichos de seda, tudo com o intuito de reproduzir essa genialidade, de alguma forma, em laboratório. Com enfoque, claro, em reduzir os danos feitos pelos meios produtivos no planeta.

Não é incrível? Particularmente, eu já disse que acredito nisto e vou repetir: só a criatividade pode nos tirar do imenso buraco em que nos encontramos aqui no Brasil. Mas, para fazermos isso com inteligência, antes precisamos parar, refletir, contemplar. Assim que vão florescer as melhores soluções.

A criatividade é como um fruto, produzido pela árvore da contemplação. É preciso regá-la, cuidá-la, praticá-la se quisermos ver a beleza criativa desabrochar.

E você? O que pensa sobre isso? Me conta aqui nos comentários que eu vou adorar saber. <3

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Transformação Criativa
Rafaela Kich
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25, anos. Jornalista. Empreendedora. Blogger. Redatora de Conteúdo. Sou apaixonada pelas palavras. Creio que são poderosas ferramentas de comunicação, instrução e, claro, trabalho.

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